Navegar é preciso
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
“Navegar é preciso; viver não é preciso”.
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma
a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
(…)
Fernando Pessoa
Orientados pelos astros e por delicados instrumentos, navegadores de todos os tempos atravessam os mares buscando seus destinos. Ontem e hoje, como amanhã, estão sujeitos à irrefutável força da natureza que, muitas vezes, desvia suas rotas, desconsiderando a “precisão” de seus instrumentos.
A precisão dos instrumentos não torna nossa vida mais “precisa”. Nossos “instrumentos de navegação” para fazer essa travessia que chamamos de vida são precários! Ela, a vida, está em constante e dinâmica transformação e flui por “águas” regidas por intenções que nós, marinheiros, desconhecemos: a intenção do “comandante do universo”. Estudiosos da física quântica já observaram que, para que a vida tenha se organizado tal qual a conhecemos, é preciso que o universo seja autoconsciente; é preciso que haja um comandante do universo! Um comandante que navega nas estrelas, conduzindo sua embarcação ao sabor de seus sonhos, através de uma rota por nós desconhecida e, apesar de nós. Não somos seu destino, talvez sejamos tripulantes de seu universo – sua grande embarcação.
E como tripulantes de uma nau universal, nossos destinos individuais só terão sentido se estiverem alinhados em “precisão” com a rota do comandante. Alguns indivíduos, guiados por uma “sabedoria de criança”, seguem nessa viagem mais leves. Não “brigam com o comandante”; em suas bagagens carregam apenas o necessário para alimentar e aquecer seus corpos. Não possuem instrumentos para tentar dominar a natureza, pois a natureza é sua pátria. Não se apropriam do porto de chegada e estão sempre a partir.
Todos aqueles que navegam desapegados da embarcação, que ainda observam estrelas e sabem que a rota a seguir deve ser traçada por seus corações, pois é lá que podem ouvir a voz do comandante, que sabem ser necessário dançar à liberdade para recriar a vida e celebrar o prazer da travessia, também sabem que, em sua última viagem, não levarão nada da terra. Apenas a alma, carregará consigo as memórias das experiências vividas durante a travessia.
O GuaracYano sabe que “navegar não é preciso”. Viaja pelas águas seguindo a rota traçada pelo pulsar do tempo: dinâmico e transformador. A cada edição, podemos descobrir novas paisagens e desfrutar de climas inesperados. Nosso jornal é um convite ao leitor para embarcar conosco nessa “navegação” e inspirar-se para partir.
Boa viagem!
Suely Scartezini
Editora do jornal O GUARACYANO